A CHAMA QUE ARDE
- J. F. de Paula F.

- 30 de jul. de 2025
- 3 min de leitura

Fugindo do fogo / Gavião-belo (Busarellus nigricollis) e Emas (Rhea americana)
A chama que arde
I
O pantanal arde em chamas
Voo como o belo gavião em meio a fuligens
O calor desloca o ar que me impulsiona na vastidão.
Atônito, sou levado pela corrente à imensidão das alturas.
De relance posso ver o calango sapecado em fuga, que na dúvida não sabe para onde correr. Tudo é brasa!
Vejo ainda o grilo queimado pela chama, na grama que o escondia.
A borboleta sem asas, chamuscada por pétalas ardentes, agoniza.
Em rápida e ardente metamorfose, a lagarta virou carvão.
Estalos e estampidos sufocam o canto agonizante de cigarras, grilos e insetos.
Do alto tudo vejo e observo, mas nada posso fazer.

Pantanal em chamas
A chama que arde
II
O pantanal arde em chamas
Voando nas alturas, feito drone insano e descontrolado,
Vejo espavoridos cervos e veados em desabalada carreira a procurar abrigos.
Sob o tropel de rudes cascos tostados, o pó cinzento eleva-se em fuligens,
A mata densa virou paliteiro de fósforos carbonizados,
O fogo aliado a forte vento, vence a veloz ema, queimando lhe a rica pluma.
O multicolorido Martim-pescador, sapecado pelas chamas, Martim-farrusco se tornou.
Catetos, capivaras e jacarés disputam com frenesi, a pouca lama do banhado,
Epífitas e camalotes escaldados em poça pequena, murcham-se em combustão.
Queima a mata, queima o campo, queima a relva e o arbusto.
Queimam as aves, queimam repteis e também queimam bípedes e quadrúpedes.

Planalto peri-pantaneiro em chamas
A chama que arde
III
O pantanal arde em chamas
Plainando nas alturas observo o arrazoar dos humanos corações.
Cobras, escorpiões, aranhas e pernilongos queimando importa a poucos.
“O carrapicho, o carrapato, a trepadeira espinhuda, a erva daninha - que as chamas os devorem”.
“Queimando a macega, o pasto se renova! A cinza aduba o verde broto!”
“Salutar é a queima”, afirmam os tradicionais bípedes de dura cerviz.
Desesperam-se somente com o queimar da invernada, dos toco-palanques e das cercas de arame.
Quilométrica e a cerca de cinco fios, esticada em infinitos mourões de qualidade e bom preço.
A chama consumidora de gado magro ou destruidora de gordo nelore é a que mais na alma arde.
A chama que arde no bolso e chamusca a conta bancaria, é a que produz queimaduras do mais intenso grau.
Muito mais vale a diversidade do boi do que a biodiversidade.
Muito mato pouco importa, bom mesmo é a brachyaria verdejante que engorda o boi e o score bancário.
Se o pasto queima, o fogo avassalador arde profundamente na alma do latifundiário.

As chamas no Pantanal e as luzes da festa junina em Corumbá
A chama que arde
IV
O pantanal arde em chamas
Voando nas alturas vejo que se o pantanal arde em chamas, a cidade arde em paixões!
Os seres humanos dizem em sua argumentação:
“Se o fogo pega no pantanal. O que posso fazer? Minha fogueira de São João não deixarei de acender.”
“Os Festejos e comemorações, eventos e inaugurações, e campanhas eleitorais não podem parar, mesmo que o incêndio aqui possa chegar.”
“Combater sinistros, incêndios e calamidades é função governamental, pois para isso pago meu imposto de forma pontual.”
“Tenho trabalho, tenho aulas, tenho família e compromissos religiosos para atender.”
“Não posso ao trabalho, atrasado chegar, nem tão pouco sair adiantado. O ponto eletrônico tenho que bater.”
“O patrão não me libera e a patroa não me deixa, se eu voluntariamente me dispuser ao fogo combater.”
Voando nas alturas, de lá pude ver. Através da mídia todos se condoem quando cenas das queimadas viralizam.
Uns consternados, comentam o fato com seus pares, outros somente naquele instante lamentam, enquanto outros pouco caso fazem.
Incêndios de grandes proporções, sempre geram furos jornalísticos e debates políticos. Quem é o culpado, que deverá ser sacrificado?
Enquanto isso as chamas não cessam, queimando implacavelmente tudo que a sua frente encontra.
Queimam de manhã, queimam a tarde, queimam ao anoitecer. Pela madrugada adentro, enquanto os casais aplacam o suas chamas da paixão, o fogo no pantanal tudo destrói com voracidade.
E eu, neste voo imaginário de uma águia do pantanal, das alturas, por entre brancas nuvens de um céu azul, apenas observo a chama que arde, sem nada mais poder fazer.

O lamento de uma triste mãe
A chama que arde
Por :J. F. de Paula F.
Coxim, Pantanal, Brasil, Julho de 2024.

“Antes era um Mato Grosso só. Depois foi se tornando um Pasto Ralo do Sul, neste momento resta apenas um Pasto Ralo Tostado, que ainda chamam de O Estado do Pantanal. Mas ainda dá tempo de conhecer o Pantanal antes que ele se acabe.”.
The End (do texto e não do Pantanal!)



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