Biônica – arte de imitar a natureza. Construindo sistemas artificiais com as características de organismos vivos.
- J. F. de Paula F.

- 30 de jul. de 2025
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O drone Shahed-136 e a mariposa florella
Entende-se que biônica, em um sentido mais amplo, é uma área da ciência que através do estudo e da observação da natureza, propõe o desenvolvimento de soluções, a partir de modelos biológicos. Nada mais é, do que encontrar soluções baseadas nas sugestões oferecidas pelo meio ambiente.
Embora o conceito de biônica tenha se popularizado a partir da década de 1940, o ser humano já utilizava esta técnica desde tempos imemoriais. É uma prática tão antiga que se torna impossível determinar a sua origem ou lembrar quando começou, pois antecede a história registrada ou a memória humana. Como exemplo podemos citar a construção de pequenas canoas utilizadas por diversas etnias em quase todas as partes de nosso planeta. A partir da observação de um tronco flutuante, escavou-se o seu interior e obteve-se uma canoa monóxila capaz de flutuar e acomodar cargas e pessoas.

A construção primitiva de uma canoa monóxila
Foi então que a partir da observação e o estudo aprofundado de elementos da natureza e de estruturas de organismos naturais, surgiu a biônica e a biomimética, como disciplina intercientífica e multidisciplinar, utilizada em diferentes campos de atuação.
No campo da engenharia, não foi diferente de outros setores. Apercebeu-se que o estudo aprofundado das estruturas dos organismos naturais, era de vital importância para o desenvolvimento de máquinas eficientes. A cópia de exemplos e mecanismos de organismos naturais, possibilitava resultados eficazes e eficientes.
A natureza tornou-se o centro das atenções, como fonte inesgotável de soluções, ou seja um banco de dados com soluções práticas e funcionais e de fácil acesso. A tecnologia moderna, pode ser modelada a partir da observação de elementos biológicos tanto da flora quanto da fauna, como é o caso especifico que abordamos aqui, sobre a imitação de um lepidóptero (uma mariposa) e a produção de um veículo aéreo não tripulado (drone).
O universo dos artrópodes, constituído por insetos, aracnídeos, crustáceos, diplópodes e quilópodes, tem sido ao longo dos anos, fonte de inspiração para o desenvolvimento de diversas tecnologias. Os diversos ecossistemas que compõem o bioma Pantanal, constituem-se em um fabuloso banco de dados, disponível a exploração e a observação. A variedade de ambientes, proporciona a formação de nichos ecológicos distintos que favorecem a presença de grande variedade de espécies.
Foram coletados no Pantanal aproximadamente 30 mil artrópodes. Isto significa a existência de gigantesca base de dados, que no campo da biônica e da biomimética, podem inspirar soluções, para a aplicação na área de engenharia e em outros campos. Isso sem falarmos na existência de mais de 1 milhão de artrópodes catalogados no planeta.
Na imagem inicial vimos uma pequeníssima mariposa de 1,5 cm de envergadura, por nome Syngamia florella e veja a incrível semelhança com o drone kamikaze Shahed-136 criado originalmente pelos iranianos, a bem pouco tempo (2021).
O formato do drone Shahed–136 assemelha-se ao formato anatômico da pequena mariposa florella que os americanos chamam de Orange-spotted Flower Moth (Mariposa-das-flores-de-manchas-laranja).
O Shahed –136 é um drone com capacidade de voar grandes distancias, podendo alcançar alvos terrestres entre 1.000 e 1.500 km de distancia. È um drone-kamikase, portátil, não tripulado, de ataque autônomo, podendo levar uma ogiva explosiva de até 40 quilos, na seção de seu nariz.
A combinação de seu desing em asa delta (ou asa de florella), com a capacidade de voar em baixa altitude, dificultam drasticamente a detecção por radares de sistemas de defesa aérea. Uma vez lançado, ele segue um caminho pré-programado, que pode incluir o máximo de curvas e desvios possível, para dificultar as defesas aéreas.

O drone Shahed-136
A mariposa florella é um inseto de hábitos diurnos, pois durante o dia, voa por entre a vegetação, visitando as flores em busca de néctar. Ela tem como predador os jovens e imaturos pássaros Bico-de-agulha, também conhecidos como Beija-flor-da-mata-virgem ou Ariramba (Galbula ruficauda), que as perseguem implacavelmente, nos pequenos espaços livres entre a vegetação.

A mariposa Syngamia florella
A Ariramba está para florella como os radares de sistemas de defesa aérea estão para o drone Shahed. A mariposa, na tentativa de evitar o predador, voa baixo por entre os arbustos, sendo que o drone voa a baixas altitudes para evitar ser dectado pelos radares. O pouso de asas abertas, semelhante a uma asa delta, serviu de exemplo para a produção do drone. A disposição das patas da pequena mariposa, facilita o pouso por sobre as pétalas das flores. Foram também criadas plataformas móveis, que facilitam a deposição e o lançamento dos drones, podendo os mesmos serem transportados sobre caminhões.

IRIS-T escudo aéreo antimísseis / Pássaro Ariramba
A aero dinâmica da mariposa e o pequeno peso de seu corpo, permite que ela realize voos rápidos, deslocando-se em alta velocidade por entre a vegetação. O Shahed, pesando 200 kilos, viaja a uma velocidade de até 185 km/h, tendo um pequeno tamanho, pois possui 3,5 metros de comprimento e 2,5 metros de largura, enquanto que a florella tem apenas 1,5 cm de envergadura.
Os drones Shahed, normalmente são pintados em cores cinza ou branco, como uma estratégia usada para passarem despercedidos por entre as nuvens e o céu, evitando assim, serem alvos de metralhadoras. A Syngamia florella foi agraciada com um fenômeno adaptativo conhecido por mimetismo Batesiano, pois sendo uma espécie inofensiva, suas cores (laranja e preto) se parece com uma espécie perigosa ou impalatável para pássaros devoradores de borboletas. È o caso das borboletas monarcas que são venenosas e possuem cores avermelhadas e negras, indicando condição de perigo para pássaros desavisados. Essa semelhança em cores, serve como um aviso para os predadores, que aprendem a evitar todas as espécies com essa aparência após experiências negativas com uma delas. Os pássaros jovens e inexperientes que ousaram atacar borboletas monarcas, sofrem tremendamente com vômitos e diarreias, passando daí por diante, a não atacarem insetos com essas cores de alerta, como é o caso da florella.

As cores da borboleta Monarca e da mariposa florella
Não é só nas cores observadas na mariposa, para driblarem predadores, que a biônica replicou nos drones. Outro fator interessando, proveniente da eficiência adaptativa que ocorreu com a florella, é quanto a sua distribuição geográfica, pois ocorre desde o sul dos Estados Unidos da América, no México, na América Central, em partes da América do Sul, atravessando o Pantanal até Argentina. O Shahed produzido inicialmente pelo Irã, espalhou-se por entre seus proxies no oriente médio, como no Líbano, na Síria, no Iraque e no Yêmen. Ao obter sucesso na Rússia, foi adaptado pela Ucrânia, fornecido a Coréia do Norte, chegando até a Venezuela, e outros países.

Drones Shahed-136 repousando em um laçador.
A Syngamia florella não é tóxica e normalmente não representa uma ameaça à saúde humana. Já os drones Shahed se tornaram uma ameaça mortal, destruindo com suas ogivas explosivas, prédios e habitações humanas, matando inúmeras pessoas, com na guerra travada entre a Rússia e a Ucrânia.
Enquanto a florella é extremamente útil a vida de plantas e do próprio ser humano, ao buscar néctar e polinizar as flores, favorecendo a multiplicação, o Shahed virou sinônimo de abominação e de terror, por sua ação execrável, ceifando a vida de crianças, jovens, adultos e idosos, de forma devastadora. Para complicar ainda mais a situação, a Rússia proveu o Shahad-135, com motores a jato, aumentando ainda mais o seu desempenho nefasto.

A mariposa Syngamia florella
Se Syngamia florella provoca simpatia e admiração, pela leveza de seu voo, pela beleza de sua anatomia e de suas cores, pela sutileza como pousa nas pétalas e a eficiência com que sua probóscide colhe o néctar, o terrível som dos motores do Shahed-135 ao cruzarem os céus, provocam o medo, a repugnância e a repulsa violenta.

A colisão de um drone Shahed-136 com um prédio residencial
Que a biônica e a biomimética sejam bem vindas, desde que usadas em prol da humanidade.
A fotografia de capa, de S. florella, de autoria de J.F.de Paula F. foi tirada sob luz natural, na região conhecida antigamente, como o “Morro dos Cavaleiros Guaicuru”, no Pantanal da Nhecolândia – Coxim – MS Brazil.
Caso haja interesse em fazer downloads free, de fotos em alta resolução sobre a biodiversidade do pantanal, acesse https://www.pexels.com/pt-br/@josefdepaula/ . São quase 500 fotos com mais de 384.000 visualizações.


Por: J. F. de Paula F.
27 jul 2025 01:47 Am



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